Feito com Caneta Bic em um Papel de Pão

Se estiver esperando fotos lindas, super profissionais, pode ir para o próximo post ou o anterior.
Agora se quiser ler uma história gostosa, pode continuar, seja bem vindo a um pedacinho da minha vida.
Quando comecei com o Blog tinha o objetivo de mostrar meu trabalho como fotógrafa mas também um pouco de mim porque, no fundo, eu e meu trabalho nos complementamos. Um precisa do outro, outro precisa do um… confuso, né? Coisa de quem trabalha com arte.
Eu, Kaká, Karina, Ká, para alguns (chame-me como quiser, como me conhece), sou, além de profissional, uma pessoa. É, acreditem, eu sou humana, uma pessoinha assim como vocês. E tenho meus momentos, me emociono, acredito que a vida nos traz coisas lindas que precisam ser compartilhadas como o que aconteceu hoje. Então hoje me perdoem, serei humana. Mais uma doida que tira selfie no celular, que tem família e vida (pessoal, não só profissional)
Imaginem um dia normal, desses bem comuns. O ser acorda, toma banho, se arruma e vai trabalhar. No meu caso, home office, nem por isso a rotina é calma. Acordo com uma lista de mil coisas a fazer. E vou riscando cada coisinha da agenda conforme faço
enviar fotos para o lab
tratar sei lá quantas fotos
diagramar álbuns
enviar pro fornecedor
enviar fotos por e-mail
Além de responder os orçamentos, atender o telefone… ufaaaaa
Em um trabalho convencional isso seria das 8 às 6. No meu caso estico até as 7, 8, 9, 10, meia-noite… ou até a hora que o marido diz que vai dormir e quase me arrasta junto.
E aí tem períodos que o ser humano aqui estressa, precisa viver um pouco, sair..
Hoje foi assim, o marido liga e diz: Vamos sair?  Nada complicado, vamos só dar uma saidinha. Normalmente isso significa ir ao shopping comprar um livro, comer algo, conversar… e voltar pra casa. Mas hoje foi diferente, muito diferente.
Marido queria “ruar”. E assim fomos pra rua, rodamos os bairros gostosos de Campinas, passamos por todos os “barzinhos” chiquetosos daqui. Alguns onde já até trabalhamos (pois é, já fizemos de tudo, já tivemos inclusive a fase de tirar fotos de balada, faz tempooooooo…). Lugares lindos mas lotados, nada com a nossa cara. E aí, após passarmos por todos esses lugares lindos marido pára em frente a um bem mais simples, em frente ao Centro de Convivência. Ele nos deixa lá, eu e Tatá (nossa companheirinha adolescente) enquanto estaciona o carro.
O lugar é até gostoso mas tem um pessoal tocando sertanejo, moda de viola, sei lá o que é aquilo… eu, que adoro MPB, confesso, torci o nariz… bem torcidinhooooooooo. E na hora pensei: “com tantos lugares bonitos qual é o motivo de termos parado aqui?”. Mas fiquei quieta. O Cardápio? Pequeno, muito pequeno. Não tinha quase nada. Caipirinha foi minha opção. E uma linguiça Toscana com Gorgonzola… parecia boa. Pra Tatá, que resolveu ser Vegetariana por ter dó dos animais, batata-frita (botecos não gostam muito de vegetarianos, sabe como é…).
Marido chegou e ficamos ali conversando. Eu ainda pensava nos barzinhos lindos pelos quais tínhamos passado, tentava abstrair. E a viola ali presente, firme e forte.. aff.
Relaxei, conversamos, rimos. E já estava tudo ótimo quando ele apareceu. Ele, o motivo de estarmos ali, o motivo de termos escolhido o lugar e o que faria nossa noite ser especial.
O nome dele era Roberto. Chegou perto de nós, mal vestido, magrelo que só… e nos mostrou um desenho. E disse: Esse é Michael Jackson, dá pra ver? Sabe, tá uma droga, né? O papel é de pão… E, acreditem, era o Michael feito de caneta bic e dava pra ver sim. Era feito com riscos mas tinha movimento, o desenho estava perfeito. E esse homem começou a falar sobre desenho. E demos espaço… e ele falou sobre arte. Sobre a arte que estudamos tanto. E ele falou sobre os artistas que conhecemos, e contou histórias. Ele disse que faltava 8 reais e sei lá quantos centavos para completar o que precisava pra pagar a pensão onde estava. Disse que era casado, disse que tinha estudado na Unesp,…
Quando dissemos que Tatá queria fazer Artes na Unicamp ou na Usp ele disse : “Não faz isso não, artista aqui não é valorizado”
Eu olhava pra ela e ela enxugava as lágrimas que queriam rolar.
Ele falava lindamente sobre a história da arte. Sobre o Cubismo… ah, Picasso não inventou o cubismo, ele copiou de Cézzane, o safado, e descobri isso com ele.
Falou sobre vários pintores, sobre a vida, sobre tudo. Ficamos ali, boquiabertos. E Tatá me pedia ao pé do ouvido: “Podemos adotá-lo?”
Neste dia, em um boteco simples, um homem apareceu e nos fez acreditar que pra tudo existe um motivo.
Duvido que isso fosse acontecer em um barzinho chiquetoso. Esse senhor sequer poderia entrar em um lugar maravilhoso, cheio de pessoas “perfeitas”, como os que passamos anteriormente. Ele seria deixado fora desses lugares e nós não teríamos a oportunidade de conhecê-lo.
Compramos o desenho. Mesmo assim ele sentou-se ao nosso lado e continuou contando histórias. Ele só queria ter com quem falar e nós ficamos maravilhados com o que ouvimos. Quanta cultura…
Ele agradeceu, disse seu nome, perguntou o nosso. Deu a mão ao meu marido, beijou a minha e ia beijar a da Tatá quando ela levantou e disse: “Eu quero te dar um abraço”. E ela o abraçou e me deixou mais feliz por saber que estamos participando da criação de uma pessoinha boa, que valoriza o que realmente tem valor.
Ele era quase um mendigo, sujo, mal vestido, unhas encardidas…. e para nós sei que será inesquecível por sua arte, sua cultura.
O desenho já está colado na parede do quarto. Do quarto dela, claro… a adolescente que sonha ser atriz, que pinta as paredes do quarto de forma nada convencional e cola lá seus desenhos.
O do Roberto ganhou destaque na parede. Um desenho feito com caneta Bic em um papel de pão, como diz a música cantada por Zeca Baleiro.
Muito mais do que um desenho ficarão guardadas as lembranças de uma das melhores noites que já tivemos.
E, é claro, preciso agradecer ao marido por não ter me levado no barzinho lindo e ter me feito entender que o principal é conseguir olhar de forma diferente o que está ao nosso lado todos os dias, essa é a grande beleza da vida.
Sim, somos humanos. Somos uma família. Somos loucos e atraímos pessoas maravilhosas pra nossas vidas. Ahhhhh, como isso é bom.
Hoje me sinto mais viva.

michael

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Vanessa Lopes - 8 de agosto de 2014 - 12:37

Ahhhh Kaká. …. tão bom ler uma história como essa logo cedo. …. vc me emocionou mais uma vez…. vc que já me emocionou tantas vezes com o seu trabalho hoje me emocionou com as suas palavras…. um grande beijo e um bom dia.

kkpillat - 8 de agosto de 2014 - 19:19

Ah, Vanessa, ontem a vida me deu uma grande lição, praticamente um presente… e todo dia aprendemos um pouco, é só nos abrirmos pra isso. Beijosss

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