Pessoalidades

Turbilhão 2014

Já acabou 2014? Por onde passou que nem vi? 
Em meio a tantas mensagens no facebook tinha me decidido a não escrever nada este ano.
Acho impossível expressar tantas coisas em palavras, meus textos são longos, podem ser cansativos e, afinal, quem se interessaria em lê-los? E quem se importa em saber como foi meu ano?
Poderia vir aqui e ser superficial, falar que o ano foi perfeito, maravilhoso, que conheci boas pessoas, que amo meu trabalho…. mas isso eu falo todos os dias, não preciso que chegue o final de ano pra falar.
Uma coisa é fato: este foi o ano que conheci mais pessoas legais com meu trabalho. Gente BOA mesmo, dessas que dá vontade de convidar pra ficar em casa só pra poder conversar. Pessoas que sei que verei novamente. E não me perguntem como sei, é apenas uma intuição (sempre acredito nessas intuições).
Meu ano foi um turbilhão. Foi o ano que mais cresci e aprendi sobre quem sou.
Foi um ano em que pude contar com meus amigos de verdade e descobrir amigos que não sabia que existiam mas hoje não vejo como vivi tanto tempo sem eles.
Vivi em extremos. Fiz várias cirurgias pra consertar uma bendita perna quebrada e senti medo, muito medo. Fiquei com medo de nunca mais andar por causa de uma infecção (trágico, não? Sempre tive um pezinho no drama). Mas em todos os momentos tive a família e amigos perto e superamos tudo juntos.
Descobri que consigo muito mais do que imaginava, literalmente reaprendi a andar, ainda estou reaprendendo.
E nesse reaprender vi que preciso andar com minhas próprias pernas, literal e metaforicamente.
Fiz minha primeira exposição junto com duas fotógrafas (Marina e Denise) e fizemos isso de uma forma linda, em um lugar maravilhoso.
Amei 2014! Foi um ano ótimo, de muito crescimento.
Pessoalmente, estou me dando a chance de me conhecer. É um processo lento que tem me trazido sensações muito boas.
Profissionalmente, continuo aprendendo, sempre…
O que espero de 2015?
Que ele venha a passos lentos enquanto ainda não consigo correr.
Que com ele venham muitos congressos porque ainda tenho muito a aprender.
Que eu consiga me organizar, desapegar e adiantar todos os trabalhos (já que este ano, com toda a correria, atrasei alguns e isso me tira o sono)
Os amigos, por favor, quero os mesmos e por muitos e muitos anos.
E a felicidade? Ah, essa não é um desejo de Ano Novo, é um desejo de vida, e só depende de mim.
Desejo novos desejos a cada dia.
As realizações eu vou dividindo por aqui, pra quem quiser ler.

Como não poderia deixar de ser, deixo aqui uma foto de 2014, uma das últimas do ano e, espero, uma das últimas em que precisei estar em uma cadeira de rodas (calma, gente, já estou de bengala e prestes a me livrar dela. Precisei da cadeira só porque o museu é muito grande e estou indo aos poucos).

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“Mais Vale o que se aprende que o que te ensinam”

Hoje um texto no facebook do Mentor Muniz Neto me despertou várias lembranças.
Lembrei do dia em que decidi me tornar publicitária.
Ficava acordada até de madrugada lendo, escrevendo e assistindo TV. Não que meus pais fossem super permissivos mas nas férias deixavam porque eu podia dormir até mais tarde no dia seguinte. 
Sempre amei as madrugadas. Era quando a casa ficava bem quietinha e eu tinha um tempo só meu, de me escutar, de escrever tudo que sentia. Madrugadas eram minha terapia e minha inspiração. Até hoje quando sou obrigada a acordar cedo “não funciono”, ainda gosto de trabalhar em silência, é quando consigo criar algo novo, ter novas idéias. 
Neste dia eu estava na frente da TV vendo “Comando da Madrugada” (sim, sou velha, eu sei) e o apresentador mostrou como tinha sido feita a propaganda do cotonete, uma animação que eu amava.
Os desenhos sendo feitos em uma espécie de acetato, pintados à mão um a um. Foi algo mágico!
Esse programa sempre tinha algo relacionado à propaganda, os grandes nomes provavelmente eram amigos do apresentador
No mesmo dia também foi mostrada uma animação do Lolo e do Grilo Falante. Fiquei com aquilo na cabeça, encantada e fui pesquisar como poderia fazer aquilo.  E assim fiquei, decidida. 
Mas eu, que não sabia desenhar sequer uma casinha, seria redatora. É isso aí, eu ia criar as histórias. 
Desde pequena sempre fui apaixonada por desenhos mas o certo é que não tinha o dom. Eu fazia minhas próprias histórias em quadrinhos, histórias ótimas, mas os desenhos… aff, digamos que eram “conceituais”, “contemporâneos” com uma pitada de psicodelismo. Resumindo: impossíveis de entender a não ser com muita abstração. 
Então com uns 12 anos decidi que ia trabalhar com os caras que criavam as propagandas de TV. Não tinha idéia do nome da profissão, só sabia que seria aquilo. Que estaria no meio de tintas, papéis, cola… e aquela coisa nova. Como se chamavam mesmo aquelas caixas com tela? Hummmmm … computadores. 
É, eu tinha um computador. Na verdade ia ter porque não era assim, ir na loja e comprar um. As peças vinham aos poucos de um “muambeiro”especialista nisso que buscava do “exterior”(também conhecido como Paraguai) e quando você tinha todas as peças ele montava o bendito computador. Em casa ele ficava em uma sala trancado e eu não podia mexer porque era criança e o “bichão”era complicado, podia estragar. Mantínhamos uma distância segura do treco pro meu pai não ter um chilique. 
Ah, mas quando eu trabalhasse na agência eu ia conhecer os de lá. E os caixotes das agências tinham uma maçã, diziam que os com maçã eram os melhores. 
Eu não entendia nada, só me encantava saber que poderia ficar entre tintas e papéis como em um jardim de infância, com adultos divertidos, contando piadas, sem um horário fixo, comendo pizza até de madrugada pra terminar o trabalho. Ah, eu ia trabalhar de madrugada, e em São Paulo, claro. 
E assim entrei pra faculdade. Foi meio no susto porque eu ia prestar vestibular no próximo ano e fui ver só como era sem estudar nada mas passei e meu pai quis que eu aproveitasse a chance. Estudava Magistério de manhã, fazia estágio à tarde e estudava Publicidade a Noite. 
Era lindo!!!! Ah, a faculdade era linda, as pessoas eram lindas, uma classe com 80 alunos onde podíamos sair e entrar quando quiséssemos (mas eu que aprendi a sentar e ficar não aproveitei nada disso). 
Primeira aula: Economia. 
E eu tentando entender os motivos… achei que estava no curso errado, perguntei para os colegas: Onde estão os papéis e as tintas? Nada
Mas era divertido, amava a maioria das matérias. Psicologia do Consumidor era o máximo, tive um professor que só falava a palavra “Paradigma” e não lembro qual era a matéria que ele dava mas lembro bem que passei a odiar essa palavra, até hoje meu dicionário mental não encontra seu significado, um trauma irreparável. 
E nas aulas que tanto esperei não tinham canetas, papéis… os computadores foram apresentados a nós, claro… uma aulinha por semana com um professor ruim de doer. Ele nos “ensinava”Corel (nem Illustrator era). Ninguém aprendeu nada. Lembro que ele tinha bafo, não é uma ótima lembrança. 
Nada de aprender animação nas aulas mas na Biblioteca eu me debruçava sobre os anuários do Clube de Criação.
E fui estudando “por conta”o que a faculdade não me proporcionava. 
Tentei fazer um curso de desenho (e ali descobri que papai do céu realmente não me deu o dom, mas tentei), lia muito para melhorar minha redação e passei a assinar “Meio e Mensagem”, uma espécie de jornal com todas as notícias sobre o que acontecia no meio publicitário. 
Entre mil livros me lembro bem do livro do Oliviero Toscani, eu amava as fotos polêmicas que ele fazia para a a Benetton e o que mais lembro é o do Alex Periscinoto (“Mais Vale o que se aprende que o que te Ensinam, 1995). 
Enquanto meus colegas de curso andavam pelos corredores cantando “Alô, Alô W/Brasil” eu, que sempre quis ser diferente, procurava outros publicitários “pra chamar de meus” e encontrei o Alex, o cara que trouxe o conceito de dupla de criação para o Brasil. Me apaixonei. Tá aí, eu ia trabalhar na Almap, estava decidido. 
Continuei o curso, fiquei apaixonada pelas aulas de redação onde finalmente me encontrei e só tirava boas notas. Um dia o professor me chamou de lado e disse: Vai pra São Paulo, vai ser redatora lá, você tem futuro. 
Passei a ser redatora nos grupos que participei, os textos ficavam comigo. Aprendi a “florear”nas provas de outras matérias pra ganhar mais nota também. No final, fui uma ótima aluna, tive notas muito boas apesar da super timidez. 
Me formei! 
E agora, José? 
Enviar currículos e começar as entrevistas. 
E o mundo caiu. 
O primeiro lugar que me chama é uma grande empresa da região. Que lugar horrendo! Frio, tristeeeeeee. 
Fui em um dia chuvoso e embora o lugar onde eu tinha que ir era em frente de onde entrei tive que atravessar pela faixa de pedreste, que era longe. Regras, muitas regras, várias ridículas. E eu, que nunca fui de exatas, odiei. Meu pai queria muito que eu trabalhasse lá. Eu certamente me enforcaria na primeira semana. Lugar cinza demais pra mim. 
Passei na entrevista, fiz a dinâmica de grupo e quando finalmente fui chamada disse : “Não, Obrigada”
Para meus pais que sonhavam com uma carreira sólida pra mim disse simplesmente que não tinha passado, assim era mais fácil pra eles aceitarem. 
O segundo lugar que me chamou era uma grande agência. Grande mesmo, acho que a maior aqui de Campinas. Só modelos trabalhando lá, só gente linda, mulheres com seus saltos fazendo toc toc pela entrada de piso que mais parecia um espelho de tão limpo. Quem me conhece sabe que não sou uma beldade. Juro que vi olhares tortos, não foi uma simples impressão. Mesmo em meu terninho impecável me senti quase monstruosa. 
E assim fui fazendo entrevistas até ser chamada em uma agência de pequeno porte (não um “muquifo”, porque fui a vários que se intitulavam agências mas não eram, só faziam classificados pro jornal e coisas do tipo). Em uma salinha, 4 computadores, 3 homens e eu. Saíamos tardeeeeeee porque o anúncio tinha que ir pro jornal no dia seguinte mas pizza não tinha. 
E glamour? Nenhum. 
Ah, papéis e cola, e lápis de cor, giz, tintas… não tinha nada. 
Eu, computador, uma salinha de paredes brancas e só. 
Éramos convidados para as melhores festas. É prêmio disso, festa de inauguração daquilo. Parece um luxo, não é? Parece…
Meu passeio pela publicidade foi sem emoção. Justo eu que ia ser a “boa da redação” desisti em meio ao jogo inflado de egos, a falsidade das festas e a falta de Magia das campanhas. 
É claro que existem pessoas maravilhosas mas também tem gente podre, que quer roubar o cliente do outro a qualquer custo. Um tipo de gente que sorri com seus dentes perfeitamente brancos mas no dia seguinte, ao chegar na agência, fala mallll pra caramba da “amiga”na qual deu beijinhos ou do “amigo” com o qual no dia anterior bebia. 
Até hoje ainda quero aprender animação (tradicional, estilo tinta em acetato, sabe?) e escrevo, agora sem pressão. Escrevo pra mim e pra quem quiser ler. 
Espero voltar a conviver com o meio da publicidade através de editoriais e fotos que tornem mágicas as idéias tidas por bons publicitários. 
Será uma nova experiência voltar assim, com leveza e alegria, pintando com minhas tintas imaginárias esse mundo.