Sobre a dor e a delícia de ser quem se é

Hoje eu tinha que escrever porque escrevo como uma forma de desabafo mas também pra expor o que penso, os motivos pelos quais penso assim.
Acordei cantando a música de Caetano  “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”.
Acordei assim porque fui dormir pensativa ontem, pensando sobre o que faço, sobre a importância disso na vida das pessoas e em como um só dia na minha vida pode ser recheado das mais diferentes emoções.
Ontem fui do melhor lado da minha profissão ao pior em segundos.
Fiz uma sessão linda. Não só a beleza das fotos, mas das pessoas. Aquele tipo de beleza que não se compra.
Fui super bem recebida naquela casa por toda a família.
Nada de comercial de margarina não, uma família real, maravilhosa, com o filho adolescente brincalhão e mega carinhoso, com um pai show que tem um brilho lindo nos olhos ao falar do filho com aquele orgulho que só os bons pais tem e a mãe, bom… essa é difícil descrever, precisariam ver pra entender. Pra fechar isso uma bebê linda que começou a sorrir agora e quando sorri faz acreditarmos no mundo.
Saí desse lar no fim da tarde com um pôr do sol maravilhoso se apresentando em um espetáculo no céu.
…. e neste momento imaginem passarinhos, árco-íris, unicórnios…. sim, assim eu estava me sentindo.
Cheguei em casa, baixei as fotos e amei cada uma delas não por estarem tecnicamente perfeitas mas porque essas fotos me farão lembrar o momento em que essa família abriu a casa pra mim e me deixou participar de seus melhores momentos, isso  é mágico, é o que me faz acordar todos os dias e saber que vale a pena.
Essa é a parte delícia (a música, lembram?)
Mas, infelizmente, tem a parte dor. Ah, a dor… é rara mas tem dias que corrói e que você tenta não se envenenar com ela.
A dor pra mim é ter o trabalho desvalorizado por alguém.
Ontem meu dia maravilhoso não fechou bem, tive uma situação indigesta no fim do dia e tento entendê-la até agora.
O caso: uma possível cliente liga para o estúdio no dia anterior pedindo que eu entrasse em contato. Eu não estava, me passaram o recado. Já havia enviado um orçamento pra ela mais de 2 meses antes e ela já tinha vindo ao estúdio ver meu trabalho, ficou de responder e sumiu.
Entrei em contato via e-mail perguntando em que poderia ajudá-la, ela pediu um novo orçamento para o mesmo evento que já havia pedido e que seria no dia seguinte (entendam… ela poderia ter fechado dois meses  antes mas entrou em contato um dia antes do evento). Ok, eu estava com o domingo livre, poderia fazer.
Ela não respondeu o e-mail rapidamente, achei que tivesse desistido, fui pra minha sessão (a que descrevi acima) e tive um dia lindo. Voltei saltitante pra casa, muito agradecida pelo dia quando, quase meia noite, me chega uma mensagem via whatsup.
A conversa foi mais ou menos assim:
Boa noite Kaká! Podemos fechar a seleção 2 pelo valor da seleção 1? O horário é amanhã as 12h mas pode chegar meia hora antes, o endereço é XXXXX.
Eu li e juro que não entendi. Tenho 4 seleções com álbuns e a 1 e a 2 são bem diferentes em quantidades de fotos e valores… a 1 tem 70 fotos, a 2 tem 110. Já vi pedirem desconto mas assim era um pouco demais…
Respondi: XX, não tenho como fazer 110 fotos pelo valor de 70.
E aí comecei a imaginar o que as pessoas pensam pra fazer uma proposta dessas… pra mim é uma desvalorização absurda do meu trabalho.
Fui dormir atordoada mas encerrei assim o assunto, dizendo que não poderia fazer por menos do que me propus.
Neste caso a pessoa não queria meu trabalho, ela queria um fotógrafo barato e pensou : Ah, Fulana está sem trabalho nesse dia então ela fará da forma que quero.
Mas no meio do caminho ela me encontrou…
Acordei com mensagem dela dizendo que fecharia a seleção 1, isso 6:30 da manhã. E aí me veio a grande questão (vejam o diabinho e o anjinho na minha cabeça). Dinheiro ou dignidade?
Respondi educadamente, encerrei a conversa e neguei o trabalho. É claro que preciso muito trabalhar mas ainda tenho ética de trabalhar para quem realmente quer meu trabalho.
Como resultado uma criança linda ficou sem fotógrafo pra sua festa, ela não terá a lembrança, que certamente merece, deste momento

Na minha cabeça durante a noite ficaram rolando mil questões e diálogos imaginários. Algo do tipo:

Moça, me desculpe mas está com o contato errado, não sou do Groupon nem do Peixe Urbano, isso aqui não é um clube de descontos.
ou
O Leilão de hoje acabou, senhora, e eu nem participava dele…
ou ainda
A Senhora aceitaria ganhar 30% a menos do seu salário fazendo o mesmo trabalho?

É claro que não disse nada disso mas nada me impede de pensar com humor nessas opções.
Acho negociar super válido, divido meus valores em até 10 vezes pra quem realmente quer o trabalho mas, por favor, me valorize.
Fotografar é um estilo, é uma forma de ver o mundo.
Cada um sabe o valor do que faz, eu sei o meu valor.
Trago comigo não só uma formação como fotógrafa (sim, eu posso dizer que sou profissional, sou habilitada, formada, com orgulho), muitos workshops, muito estudo de técnicas mas, muito mais que tudo isso, trago meu coração que fica ali, aberto, a cada evento que faço. E o valor aos meus sentimentos só eu posso dar.

Quanto a dor e a delícia, pra minha sorte tenho infinitamente mais delícia e é ela que me faz passar pela dor com muita paciência.

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